Investigação Curitiba/PR

Duas facas, apartamento em leilão e nenhuma certeza: polícia revela novas pistas sobre família morta no Água Verde

DHPP ainda não conseguiu reconstruir a sequência das mortes de Marcos, Claudia e Rafael Furuyama. Exames de DNA, câmeras, celulares e a situação financeira da família agora são peças centrais da investigação.

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Duas facas, apartamento em leilão e nenhuma certeza: polícia revela novas pistas sobre família morta no Água Verde
Foto: Cristiano Vaz/Banda B

O que aconteceu dentro de um apartamento na Rua Guilherme Pugsley, no bairro Água Verde, continua sendo um mistério para a Polícia Civil do Paraná. Um dia depois de três integrantes da mesma família serem encontrados mortos, a investigação revelou novos detalhes sobre a cena, as armas apreendidas e a situação financeira dos moradores. Mas a principal pergunta permanece sem resposta: quem atacou quem e em qual sequência?

As vítimas são Claudia Hitomi Shimada Furuyama, médica pediatra, Marcos Alberto Furuyama, engenheiro civil, e Rafael Furuyama, estudante de Engenharia Mecatrônica da UTFPR. Os três foram encontrados mortos na tarde de terça-feira (25) dentro do imóvel onde viviam. Os corpos apresentavam múltiplos ferimentos provocados por arma branca e estavam distribuídos em dois cômodos diferentes.

Duas armas com sangue podem ajudar a revelar o que aconteceu

Um dos principais elementos da investigação são duas armas brancas encontradas dentro do apartamento com vestígios de sangue. Segundo o delegado Ivo Viana, da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), a polícia solicitou exames de material genético tanto nas armas quanto nas roupas das vítimas.

O objetivo é identificar a quem pertence cada vestígio e cruzar os resultados para tentar descobrir qual objeto esteve envolvido em cada agressão e estabelecer uma possível sequência dos acontecimentos.

Os laudos de necropsia também serão fundamentais. A posição, profundidade e características dos ferimentos poderão ajudar os peritos a esclarecer a dinâmica das mortes, algo que a polícia afirma ainda não ser possível determinar apenas pela análise inicial do apartamento.

Cena chama atenção pela ausência de sinais de luta

Outro detalhe considerado importante pela DHPP é o estado do imóvel.

Apesar da violência encontrada nos quartos onde estavam os corpos, não havia sinais de uma briga generalizada nas demais dependências do apartamento. Segundo o delegado, não foram observados móveis quebrados, objetos espalhados ou vestígios de sangue indicando que uma luta tenha percorrido outros ambientes da residência.

Os indícios encontrados até agora sugerem que os acontecimentos tenham ficado concentrados principalmente nos dois quartos onde os corpos foram localizados.

Claudia e Rafael estavam em um dos cômodos, enquanto Marcos foi encontrado em outro. A polícia, porém, ainda evita tirar conclusões apenas a partir dessas posições.

Porta estava trancada por dentro

O apartamento também estava trancado por dentro quando houve a entrada no imóvel. Foi necessário o auxílio de um chaveiro depois que a ausência da família, além de outros sinais percebidos no condomínio, passou a causar preocupação.

Esse elemento reduz, neste momento, a força da hipótese de participação de uma pessoa estranha à família, mas não elimina completamente essa possibilidade.

A DHPP pretende analisar imagens das câmeras de segurança do condomínio e os registros de entrada e saída do prédio para verificar se alguém esteve no local em período próximo às mortes. A possibilidade de envolvimento de uma quarta pessoa é tratada como remota, mas ainda faz parte das hipóteses que precisam ser tecnicamente descartadas.

Celulares podem reconstruir as últimas horas da família

Outra frente importante da investigação envolve os aparelhos celulares de Marcos, Claudia e Rafael.

A polícia pretende analisar mensagens, chamadas e outros registros para montar uma linha do tempo e identificar quando cada integrante da família manteve contato pela última vez com outras pessoas.

Segundo informações já levantadas, Claudia teria conversado com uma amiga no domingo anterior à descoberta dos corpos. Familiares, amigos, colegas de trabalho e pessoas próximas também deverão ser ouvidos para ajudar a esclarecer o comportamento da família nos dias anteriores.

A Polícia Civil começou nesta quarta-feira a ouvir testemunhas relacionadas ao caso.

Apartamento havia sido levado a leilão

O elemento novo que mais chama atenção fora da própria cena das mortes é a situação financeira da família.

O delegado Ivo Viana confirmou que a investigação verificou que o apartamento onde os três viviam havia sido levado a leilão judicial. A polícia também recebeu a informação de que um oficial de Justiça teria ido ao condomínio para tratar de uma intimação relacionada ao imóvel.

Outras apurações publicadas nesta quarta-feira indicam ainda problemas financeiros envolvendo a família e empresas ligadas a ela. Há informação de que outros imóveis também poderiam estar envolvidos em leilões judiciais.

Esse contexto inevitavelmente passa a integrar a investigação, mas a própria Polícia Civil faz uma ressalva fundamental: não existe, neste momento, conclusão de que problemas financeiros tenham provocado as mortes.

O leilão é uma informação confirmada.

A relação dele com a tragédia, porém, ainda precisa ser demonstrada.

Polícia evita confirmar hipótese inicial

Desde que os corpos foram encontrados, uma das hipóteses consideradas é a de homicídios dentro do núcleo familiar seguidos da morte do possível autor.

Mas, nesta quarta-feira, a DHPP fez questão de evitar uma conclusão antecipada.

A polícia afirma que ainda não possui elementos técnicos suficientes para estabelecer com segurança a autoria de cada agressão, a sequência das mortes ou mesmo descartar completamente outras possibilidades.

Essa cautela é especialmente importante porque a cena possui elementos que podem apontar em diferentes direções.

A porta estava trancada por dentro e não foram observados sinais evidentes de invasão. Por outro lado, será necessário explicar tecnicamente as lesões encontradas em cada vítima e verificar os vestígios de sangue presentes nas duas armas apreendidas.

Sem os resultados da perícia, qualquer reconstrução definitiva seria precipitada.

Quem eram Marcos, Claudia e Rafael

Claudia era médica pediatra e atuava havia mais de duas décadas no serviço público de saúde de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba.

Marcos era engenheiro civil, formado pela Universidade Federal do Paraná.

Rafael cursava Engenharia Mecatrônica na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). A universidade lamentou publicamente a morte do estudante.

O perfil da família e a ausência inicial de uma explicação clara para as mortes aumentaram a repercussão do caso em Curitiba.

O que a polícia ainda precisa responder

Apesar da quantidade de informações que surgiram nas últimas horas, as perguntas mais importantes continuam em aberto.

A DHPP ainda tenta esclarecer:

Quem iniciou as agressões?

Qual das duas armas foi utilizada contra cada vítima?

De quem é o sangue encontrado em cada objeto?

Qual foi a sequência das mortes?

Quando exatamente tudo aconteceu?

Houve participação de alguma quarta pessoa?

A situação financeira da família possui alguma relação com a tragédia?

As respostas deverão vir da combinação dos laudos de necropsia, exames de DNA, perícia das armas, análise dos celulares, câmeras do condomínio e depoimentos de testemunhas.

Por enquanto, talvez o dado mais importante seja justamente aquilo que a Polícia Civil ainda não afirma.

Mesmo com duas armas apreendidas, um apartamento trancado por dentro, ausência de sinais de invasão e informações sobre dificuldades financeiras, a investigação ainda não encontrou elementos suficientes para determinar oficialmente o que aconteceu dentro daquele apartamento.

O caso que inicialmente parecia apontar para uma explicação relativamente direta agora depende da ciência forense para confirmar — ou desmontar — as primeiras hipóteses.

E enquanto os laudos não chegam, o mistério permanece: o que aconteceu nas últimas horas de Marcos, Claudia e Rafael Furuyama dentro do apartamento no Água Verde?

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