Os postes carregados de cabos de energia, telefonia e internet que fazem parte da paisagem urbana de Curitiba podem começar a perder espaço nos próximos anos. A capital paranaense está dando um novo passo para estudar a implantação de redes subterrâneas de energia elétrica e telecomunicações, em um projeto que poderá colocar a cidade na dianteira de uma mudança de infraestrutura ainda pouco comum no Brasil.
A Prefeitura de Curitiba e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) têm prevista para esta terça-feira (25) a assinatura de um protocolo de cooperação que permitirá aprofundar os estudos técnicos e econômicos necessários para tirar parte da fiação dos postes e levá-la para estruturas subterrâneas. A formalização está programada para as 15h, na Prefeitura.
O diferencial está justamente na dimensão do projeto. Segundo a Prefeitura, Curitiba será a primeira cidade brasileira a contratar estudos de viabilidade para estruturar uma Parceria Público-Privada, a chamada PPP, especificamente voltada ao enterramento da fiação urbana. A intenção é avaliar não apenas se a solução é tecnicamente possível, mas também como ela poderia ser financiada, implantada e mantida ao longo dos próximos anos.
Fiação poderá sair dos postes e ir para o subsolo
Na prática, a proposta é substituir, em áreas que venham a ser contempladas pelo futuro projeto, as redes aéreas atualmente instaladas nos postes por estruturas subterrâneas capazes de receber cabos de distribuição de energia e telecomunicações.
Isso significa que boa parte daquele emaranhado de fios encontrado principalmente nas regiões mais movimentadas da cidade poderá, futuramente, desaparecer da paisagem. Mas isso não acontecerá imediatamente. O protocolo representa o início de uma fase de estudos. Somente depois das análises técnicas, econômicas e jurídicas será possível definir a extensão do projeto, os locais que poderiam ser atendidos, os investimentos necessários e o modelo de contratação.
A futura PPP também precisará definir a participação do poder público e das empresas envolvidas na infraestrutura urbana. Portanto, ainda não existe um cronograma para que os fios comecem efetivamente a ser retirados das ruas.
Curitiba pode virar referência nacional
O projeto chama atenção porque o enterramento em larga escala das redes urbanas ainda representa um desafio para as cidades brasileiras. A iniciativa de Curitiba poderá servir como referência caso a modelagem se mostre economicamente viável.
Além do impacto visual, redes instaladas no subsolo ficam menos expostas diretamente a situações como quedas de galhos, árvores e outros eventos que podem atingir estruturas aéreas. Por outro lado, a implantação subterrânea exige obras, planejamento e investimentos significativamente maiores, justamente um dos motivos pelos quais a Prefeitura pretende iniciar o processo com estudos detalhados antes de qualquer contratação.
O protocolo com o BNDES permitirá avaliar os caminhos para uma eventual PPP e a futura contratação de serviços especializados para a estruturação do projeto.
Parceria com BNDES vai além dos fios
O enterramento da fiação não é o único grande projeto de infraestrutura envolvendo Curitiba e o BNDES. A parceria entre o banco e o município também alcança o novo modelo de concessão do transporte coletivo.
No mesmo encontro desta terça-feira, Prefeitura e BNDES devem apresentar um balanço do trabalho relacionado ao edital da nova concessão dos ônibus da capital, publicado em 19 de agosto.
Outro investimento de peso está na eletrificação da frota. O BNDES aprovou R$ 380 milhões em financiamento para a aquisição de 80 ônibus elétricos destinados ao transporte público curitibano. A medida integra o projeto de renovação da frota e redução progressiva da utilização de veículos movidos exclusivamente a combustíveis fósseis.
Da imagem dos postes para uma nova Curitiba
Se sair do papel, o enterramento das redes poderá provocar uma das mudanças visuais mais perceptíveis na infraestrutura urbana de Curitiba. Postes podem continuar existindo para outras finalidades, mas a redução dos cabos aéreos mudaria significativamente a aparência de algumas das principais ruas e avenidas da capital.
Antes disso, porém, há um longo caminho. O que Curitiba inicia agora é justamente a etapa que deverá responder às perguntas mais importantes: quanto custaria enterrar a rede, quais regiões deveriam ser priorizadas, quem pagaria pelos investimentos e como seria estruturada a participação das concessionárias de energia e telecomunicações.
Ainda não há, portanto, previsão para que toda a cidade tenha fios subterrâneos — e nem a confirmação de que toda a rede atual seria contemplada.
O passo anunciado agora é o início da construção desse modelo.
Caso os estudos confirmem sua viabilidade e a PPP avance, Curitiba poderá se transformar na primeira grande experiência brasileira estruturada especificamente para levar, em escala urbana, parte da infraestrutura que hoje ocupa os postes para debaixo das ruas.
E a mudança pode ser muito maior do que simplesmente melhorar a aparência da cidade: Curitiba poderá abrir um caminho que outras capitais brasileiras passarão a observar de perto.