Uma negociação envolvendo poucos quilômetros de mar pode ter consequências sobre o preço dos combustíveis em praticamente todo o planeta. Irã e Omã avançaram em um acordo para administrar o Estreito de Ormuz, passagem estratégica entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã e uma das principais rotas utilizadas pelo comércio mundial de petróleo e gás.
A Guarda Revolucionária do Irã anunciou nesta quarta-feira (26) que os dois países chegaram a entendimentos considerados aceitáveis sobre a divisão das águas do estreito e das receitas relacionadas à utilização da passagem. Teerã, no entanto, deixou claro que isso não significa uma reabertura imediata e irrestrita da rota.
Antes do atual conflito no Oriente Médio, aproximadamente um quinto das remessas mundiais de petróleo e gás natural liquefeito passava pelo Estreito de Ormuz, segundo a Reuters. A redução drástica do tráfego desde fevereiro transformou a região novamente em um dos principais focos de preocupação do mercado internacional de energia.
Irã condiciona abertura a acordo com os Estados Unidos
O principal obstáculo continua sendo Washington. Segundo o porta-voz da Guarda Revolucionária, Hossein Mohebbi, o Irã considera que os Estados Unidos estão dificultando as negociações e afirma que a passagem só poderá ser reaberta dentro do novo modelo caso Washington aceite as condições iranianas.
A posição anunciada por Teerã é dura: sem entendimento com os Estados Unidos, o estreito não será completamente aberto. O impasse ocorre enquanto Washington mantém pressão econômica sobre o Irã e amplia sanções contra o país.
Embora a Guarda Revolucionária tenha anunciado que houve acordo com Omã, ainda existe cautela sobre o estágio exato das negociações. Uma fonte iraniana de alto escalão disse à Reuters nesta quarta-feira que o entendimento ainda não estaria completamente finalizado.
Corredor temporário pode permitir passagem de navios
Uma das alternativas discutidas é a criação de um corredor marítimo temporário administrado por Irã e Omã. O objetivo seria restabelecer gradualmente a passagem de navios comerciais enquanto os dois países negociam um modelo permanente.
Pelo desenho apresentado por autoridades iranianas, embarcações entrando no Golfo Pérsico utilizariam águas iranianas. No sentido contrário, a rota de saída passaria por águas do Irã e também de Omã. As negociações para uma estrutura permanente deverão continuar pelos próximos 30 a 60 dias.
Os dois países também discutiram a remoção de minas marítimas, considerada fundamental para aumentar a segurança da navegação.
Irã quer impedir passagem de navios militares
Outro ponto da negociação pode gerar forte reação internacional. O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, afirmou que, caso o entendimento entre em vigor nos termos discutidos, navios militares não poderão atravessar o Estreito de Ormuz.
A proposta afetaria diretamente a presença militar norte-americana e de outros países no Golfo Pérsico. Os Estados Unidos já demonstraram oposição a partes do modelo que está sendo discutido por Irã e Omã.
Essa disputa transforma o acordo em algo muito maior do que uma simples negociação comercial. Controlar quem pode atravessar Ormuz significa possuir influência direta sobre uma das regiões militarmente mais sensíveis do planeta.
Tráfego continua muito abaixo do normal
Apesar das negociações, o movimento de navios ainda está longe de voltar à normalidade.
Dados preliminares da empresa de monitoramento marítimo Kpler mostram que apenas cinco embarcações transportando commodities atravessaram o Estreito de Ormuz na terça-feira (25). A média dos dez dias anteriores era de 15 navios, e o volume continua muito abaixo dos níveis registrados antes da guerra.
Isso demonstra que, mesmo com sinais diplomáticos positivos, grandes empresas de transporte e energia continuam avaliando cuidadosamente o risco de utilizar a passagem.
Ataques contra navios, restrições militares, sanções e bloqueios mantêm o estreito em situação de elevada incerteza.
Petróleo já reage às negociações
O mercado internacional reagiu rapidamente às notícias de possível entendimento.
Nesta quarta-feira, os preços do petróleo caíram mais de 1,5%, com investidores aumentando as apostas de que um acordo possa permitir a recuperação gradual das exportações pelo estreito. O Brent chegou a ser negociado próximo de US$ 87 por barril, enquanto o petróleo norte-americano WTI ficou próximo de US$ 81.
A lógica é simples: se mais petróleo conseguir atravessar Ormuz, aumenta a oferta disponível no mercado mundial e diminui o risco de uma interrupção prolongada.
Isso tende a reduzir a pressão sobre os preços.
Por que Ormuz importa para o Brasil?
O Brasil está a milhares de quilômetros do Estreito de Ormuz, mas não está protegido dos efeitos de uma crise na região.
O petróleo é negociado internacionalmente. Quando uma rota responsável por parcela tão significativa da oferta mundial é interrompida, os preços globais podem subir. Isso pode influenciar gasolina, diesel, transporte, fretes, produção industrial e inflação, inclusive no mercado brasileiro.
O efeito contrário também existe. Uma normalização do tráfego pode reduzir o chamado prêmio de risco geopolítico incorporado ao preço do barril e ajudar a diminuir a pressão sobre combustíveis e cadeias logísticas.
Por isso, uma negociação entre Irã e Omã pode parecer distante, mas pode chegar ao bolso do consumidor brasileiro.
Um dos pontos mais estratégicos do planeta
O Estreito de Ormuz possui cerca de 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, mas sua importância econômica é desproporcional ao tamanho.
Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iraque e Catar dependem em diferentes graus das águas do Golfo para escoar petróleo, derivados e gás.
É justamente essa concentração que transforma qualquer ameaça à navegação na região em um problema internacional.
Uma interrupção prolongada não afeta apenas produtores árabes ou o Irã. Ela alcança grandes compradores asiáticos, mercados europeus e, por consequência, preços de energia no mundo inteiro.
O acordo é um avanço, mas a crise está longe do fim
O entendimento anunciado entre Irã e Omã representa um dos sinais diplomáticos mais importantes das últimas semanas, mas ainda está longe de significar que a crise foi resolvida.
Há divergências sobre os termos finais, o tráfego continua reduzido e existe um enorme obstáculo político envolvendo os Estados Unidos.
Além disso, transformar o modelo temporário em um sistema permanente exigirá definir quem controla a passagem, como serão divididas as receitas, quais navios poderão atravessar e quais garantias de segurança serão oferecidas às embarcações comerciais.
Por enquanto, o mercado enxergou o anúncio como um sinal positivo e o petróleo recuou. Mas a pergunta que realmente interessa ao mundo continua sem resposta:
o acordo entre Irã e Omã será suficiente para reabrir uma das rotas de energia mais importantes do planeta ou o impasse com os Estados Unidos manterá Ormuz no centro de uma nova crise internacional?