Mais de quatro anos após o início da invasão russa em larga escala, a guerra da Ucrânia continua longe de uma solução definitiva. Nas últimas semanas, entretanto, Estados europeus aumentaram novamente o apoio militar e financeiro a Kyiv, ao mesmo tempo em que cresce a tentativa de construir uma nova rodada de negociações capaz de levar a um cessar-fogo.
Nesta segunda-feira (24), a Comissão Europeia aprovou mais € 6,1 bilhões em assistência financeira para a Ucrânia adquirir equipamentos de defesa, incluindo sistemas antiaéreos, mísseis, munições e radares. O novo pacote se soma a € 16 bilhões em planos de aquisição já aprovados anteriormente pela União Europeia.
A decisão acontece em um momento de aumento dos ataques contra cidades ucranianas. Dados mais recentes da Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos da ONU mostram que pelo menos 437 civis foram mortos e 2.610 ficaram feridos somente em julho de 2026. Foi o maior número mensal de civis mortos desde maio de 2022. Armas de longo alcance, principalmente mísseis e drones, responderam pela maior parcela dessas vítimas.
Reino Unido e França aumentam apoio militar
Outro movimento importante veio do Reino Unido. Durante visita a Kyiv, o primeiro-ministro britânico Andy Burnham anunciou que Londres permitirá que a Ucrânia tenha acesso a tecnologia classificada relacionada aos componentes britânicos do míssil de cruzeiro Storm Shadow, permitindo que os ucranianos avancem na produção doméstica desse tipo de armamento.
A França também autorizou a transferência da tecnologia necessária envolvendo o sistema, enquanto o presidente francês Emmanuel Macron defendeu a aceleração da entrega de interceptadores de defesa aérea. A principal preocupação de Kyiv é a redução do estoque de mísseis capazes de interceptar ataques balísticos russos.
A lógica defendida por parte dos aliados ocidentais é clara: não basta permitir que a Ucrânia apenas suporte os ataques. Para aumentar o custo militar da ofensiva russa, Kyiv precisa ser capaz de atingir estruturas utilizadas para sustentar a guerra também longe da linha de frente.
O presidente da Finlândia, Alexander Stubb, defendeu publicamente essa estratégia e afirmou que os parceiros da Ucrânia precisam ajudá-la a ampliar a capacidade de realizar ataques de longo alcance contra alvos dentro da Rússia. Segundo ele, elevar o custo da guerra para Moscou pode aumentar a pressão interna por seu encerramento.
Moscou acusa Europa de escalar o conflito
A reação do Kremlin foi imediata. O governo russo afirma que a transferência de tecnologia de mísseis e o apoio a ataques de longo alcance representam uma escalada da participação europeia na guerra.
O porta-voz Dmitry Peskov acusou líderes como Stubb e Burnham de integrar o que chamou de “partido da guerra” e argumentou que os aliados ocidentais estariam prolongando o conflito ao aumentar a capacidade militar ucraniana.
Essa é a posição defendida por Moscou desde o início da ampliação do apoio militar ocidental. Para o Kremlin, o fornecimento de armas transforma países da OTAN em participantes indiretos do conflito.
Do outro lado, governos europeus argumentam que a Rússia iniciou a invasão em larga escala em fevereiro de 2022 e que interromper o apoio militar sem uma solução negociada poderia simplesmente deixar a Ucrânia em uma posição incapaz de defender seu próprio território.
OTAN também reforça sua própria defesa
A preocupação europeia já não se limita ao território ucraniano. Em agosto, a OTAN reuniu o Conselho do Atlântico Norte depois de violações do espaço aéreo da Polônia e da Romênia e de outros incidentes envolvendo drones.
A organização atribuiu responsabilidade à Rússia pelos episódios e anunciou a continuidade do fortalecimento das defesas aéreas e antimísseis no flanco oriental da Aliança, entre o Mar Báltico e o Mar Negro. A OTAN também reafirmou o apoio à soberania e à integridade territorial da Ucrânia.
O objetivo declarado é dissuasão: aumentar a capacidade defensiva dos países aliados para reduzir o risco de que a guerra atravesse as fronteiras da Ucrânia e envolva diretamente membros da OTAN.
Mas existe uma nova janela para negociação
Mesmo com o fortalecimento militar, o caminho diplomático não foi abandonado. Nesta terça-feira (25), o presidente Volodymyr Zelensky afirmou enxergar uma janela para uma possível mediação dos Estados Unidos até o verão europeu de 2027.
Ucrânia, Estados Unidos e países europeus trabalharam conjuntamente em um documento com propostas que poderá ser apresentado a Moscou. Entre as ideias estão um cessar-fogo e uma proposta norte-americana para criação de uma zona econômica especial em parte do Donbas administrada por uma terceira parte.
As diferenças, porém, continuam profundas. A Rússia exige que a Ucrânia reconheça a perda integral de quatro regiões que Moscou reivindica como russas — embora as forças russas nem sequer controlem completamente todos esses territórios. Kyiv rejeita entregar formalmente essas regiões como condição para encerrar a guerra.
É exatamente nesse ponto que está o principal impasse.
Apoiar a Ucrânia não significa defender uma guerra sem fim
A posição editorial do RMCNews é de que o apoio dos países ocidentais à defesa da Ucrânia encontra justificativa enquanto um Estado soberano continuar enfrentando uma invasão e pressões para entregar territórios pela força.
Uma negociação de paz é necessária e deveria ser perseguida com intensidade. Mas existe uma diferença entre negociação e capitulação.
Se uma guerra de conquista resultar simplesmente na incorporação permanente de territórios porque o país atacado ficou sem condições militares de resistir, o precedente ultrapassa as fronteiras ucranianas. Ele sinaliza a outros governos que fronteiras internacionalmente reconhecidas podem ser alteradas pela força desde que o agressor consiga sustentar a guerra por tempo suficiente.
É nesse contexto que o apoio europeu deve ser analisado.
Defesas antiaéreas destinadas a impedir que mísseis atinjam cidades, recursos para manter a capacidade de defesa ucraniana e pressão econômica contra Moscou não deveriam ser vistos isoladamente como instrumentos para prolongar o conflito. Também são instrumentos de negociação: um país capaz de se defender negocia em condições diferentes de um país militarmente encurralado.
O apoio também precisa ter limites
Isso não significa dar um cheque em branco a Kyiv. Operações ucranianas também precisam respeitar o direito internacional humanitário, e ataques que atinjam deliberadamente civis não podem ser justificados pela invasão russa. Ataques ucranianos dentro da Rússia já provocaram mortes de civis, inclusive crianças, e esses episódios também precisam ser tratados com seriedade.
O apoio ocidental precisa vir acompanhado de fiscalização sobre armas, combate à corrupção, proteção à população civil e manutenção de canais diplomáticos.
A defesa de uma Ucrânia soberana não exige ignorar erros de Kyiv. Da mesma forma, reconhecer esses erros não coloca no mesmo plano a decisão que iniciou a invasão em larga escala e o direito do país atacado de se defender.
Pressão militar e diplomacia terão que caminhar juntas
A estratégia que começa a aparecer entre os aliados ocidentais combina dois movimentos: aumentar o custo da continuação da guerra para Moscou e, paralelamente, construir uma saída negociada.
A União Europeia aumenta o financiamento militar. Reino Unido e França ampliam a cooperação tecnológica. A OTAN fortalece a defesa de suas fronteiras. E Estados Unidos e europeus trabalham com Kyiv em propostas para uma futura negociação.
Nenhuma dessas medidas garante o fim da guerra.
Mas, diante de um conflito que somente em julho deixou mais de 3 mil civis mortos ou feridos na Ucrânia, simplesmente abandonar a capacidade ucraniana de defesa também teria consequências.
Para o RMCNews, a saída mais responsável passa por manter a Ucrânia capaz de defender sua soberania, aumentar a pressão para que Moscou aceite uma negociação real e buscar um acordo que interrompa as mortes sem transformar a conquista territorial pela força em recompensa política.
A paz continua sendo o objetivo. A grande discussão agora é qual tipo de paz será construída — e qual preço o mundo aceitará pagar para alcançá-la.