Uma das maiores crises recentes entre o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal escalou rapidamente nesta terça-feira (8). O ministro André Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial da corporação, Leandro Almada da Costa.
A medida tem efeito imediato e ocorre no contexto de uma disputa envolvendo relatórios de inteligência produzidos pela Polícia Federal, investigações relacionadas ao Banco Master, o empresário Daniel Vorcaro e divergências dentro do próprio STF sobre a forma como informações sigilosas foram produzidas e utilizadas.
Mendonça classificou a situação como de elevada gravidade e determinou ainda que a Corregedoria da Polícia Federal abra procedimentos de natureza criminal e administrativo-disciplinar para apurar quem ordenou a produção dos documentos, quem os elaborou e de que maneira as informações foram compartilhadas.
Mendonça diz que foi monitorado pela Inteligência da PF
No centro da decisão estão documentos atribuídos à área de inteligência da Polícia Federal. Segundo Mendonça, relatórios teriam analisado não apenas investigações, mas também decisões judiciais, comportamento funcional de magistrados, atuação da Advocacia-Geral da União e de policiais responsáveis por diferentes apurações.
O ministro afirma que sua própria atuação teria sido alvo de acompanhamento sistemático. Reportagens sobre a decisão apontam que ao menos seis relatórios sigilosos teriam sido produzidos entre 3 e 31 de agosto e enviados no contexto de apurações relacionadas ao STF.
Um detalhe também chamou atenção: Mendonça questionou a formalidade dos documentos, apontando que parte do material não apresentaria timbre, brasão, assinatura ou numeração oficial da Polícia Federal.
A preocupação manifestada pelo ministro é de que estruturas de inteligência do Estado tenham sido utilizadas para produzir análises sobre autoridades em razão do exercício de suas funções, algo que, se comprovado fora das hipóteses legais de investigação, pode representar uma grave violação institucional.
Afastamento não significa declaração de culpa
Apesar do peso da decisão, é importante fazer uma distinção.
Andrei Rodrigues e Leandro Almada não foram condenados por qualquer crime nesta decisão.
O afastamento é preventivo. Segundo Mendonça, a finalidade é impedir possíveis interferências enquanto a Corregedoria apura a origem dos relatórios e eventuais responsabilidades.
O próprio ministro registrou que a medida não representa antecipação de culpa.
A investigação deverá esclarecer se os documentos foram regularmente solicitados, qual era sua finalidade, quem tinha acesso ao conteúdo e se houve alguma utilização incompatível com as atribuições da Polícia Federal.
Crise passa pelo caso Banco Master
A tensão entre o gabinete de André Mendonça e a direção da PF não começou nesta terça-feira.
Parte do conflito se desenvolveu em torno das investigações relacionadas ao Banco Master, cujo ex-controlador, Daniel Vorcaro, está no centro de apurações envolvendo suspeitas de fraudes financeiras.
Mendonça assumiu a relatoria do caso no STF e adotou medidas restringindo o acesso e o compartilhamento de informações sigilosas das investigações. Essas decisões passaram a provocar divergências com setores da Polícia Federal sobre fluxo de informações, acesso da cúpula da corporação aos inquéritos e autonomia dos investigadores.
O conflito ganhou dimensão pública depois do surgimento de mensagens atribuídas a Vorcaro envolvendo autoridades e da divulgação de relatórios internos que passaram a alimentar acusações cruzadas.
Alexandre de Moraes também está no centro da crise
Outro personagem central é o ministro Alexandre de Moraes.
Um relatório atribuído à Polícia Federal, posteriormente tornado público por Moraes, levantaria suspeitas sobre um possível direcionamento de investigações conduzidas sob a relatoria de Mendonça. O documento, segundo a Agência Brasil, não tinha assinatura nem cabeçalho oficial da PF.
Mendonça reagiu afirmando que a produção e a divulgação desse tipo de material poderiam representar violação das prerrogativas de magistrados, integrantes da advocacia pública e da própria atividade policial.
A disputa, portanto, deixou de ser apenas uma divergência interna sobre procedimentos e se tornou um confronto institucional envolvendo ministros do Supremo e a cúpula de uma das principais instituições policiais do país.
Mendonça também suspendeu novos relatórios desse tipo
Além dos afastamentos, André Mendonça proibiu a produção, elaboração e compartilhamento de relatórios de inteligência destinados a analisar atos praticados no exercício das funções de magistrados, integrantes da advocacia pública ou da polícia judiciária.
A ordem tenta impedir que documentos semelhantes continuem sendo produzidos até que a legalidade e a finalidade dos relatórios já existentes sejam esclarecidas.
A Corregedoria deverá verificar também se existem outros materiais semelhantes além dos documentos já identificados.
Segunda Turma já tem maioria para manter afastamentos
Poucas horas depois da decisão individual de Mendonça, o caso foi levado à Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal.
Até o fim da manhã desta terça-feira, já havia maioria de três votos a zero para manter os afastamentos.
Além de Mendonça, os ministros Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam integralmente a decisão.
O julgamento, porém, não foi concluído.
O ministro Gilmar Mendes pediu vista, ou seja, solicitou mais tempo para analisar o processo. Dias Toffoli ainda não havia registrado voto.
O pedido de vista suspende a conclusão do julgamento colegiado, mas não derruba a decisão individual de André Mendonça. Por isso, Andrei Rodrigues e Leandro Almada continuam afastados enquanto o caso permanece em análise.
Número 2 da PF manifesta apoio a Andrei
Dentro da própria Polícia Federal, a decisão provocou forte reação.
O diretor-executivo da corporação, William Murad, considerado o número dois da PF, manifestou publicamente confiança em Andrei Rodrigues nesta terça-feira. Integrantes da cúpula da instituição também passaram a demonstrar preocupação com o impacto da decisão sobre a autonomia e o funcionamento da Polícia Federal.
A corporação vive, portanto, um cenário incomum: seus dois principais responsáveis pela direção e inteligência estão afastados por ordem de um ministro do Supremo, enquanto a própria Corregedoria deverá investigar a atuação interna que levou à crise.
Uma discussão que vai além de nomes
Embora a disputa envolva personagens de enorme peso político e institucional, a questão central ultrapassa os nomes de André Mendonça, Alexandre de Moraes ou Andrei Rodrigues.
O caso coloca em debate até onde pode ir a atividade de inteligência policial.
A Polícia Federal possui atribuições legítimas para produzir informações de inteligência destinadas a prevenir crimes, apoiar investigações e proteger instituições.
Mas existe uma diferença significativa entre investigar fatos juridicamente definidos e produzir análises sobre a maneira como autoridades exercem suas funções.
Se os relatórios questionados por Mendonça foram produzidos dentro das regras e possuíam finalidade investigativa legítima, isso terá de ser demonstrado.
Se foram utilizados para acompanhar informalmente magistrados, advogados públicos ou policiais sem fundamento jurídico adequado, o problema se torna muito maior.
É justamente essa fronteira que a investigação da Corregedoria deverá esclarecer.
Crise institucional ainda está longe do fim
O afastamento do diretor-geral da Polícia Federal não encerra a crise.
Na verdade, pode representar apenas o começo de uma fase ainda mais delicada.
A Segunda Turma terá que concluir o julgamento. A Corregedoria da PF deverá investigar seus próprios integrantes. A origem e autoria dos relatórios precisarão ser identificadas. E as divergências envolvendo os casos Banco Master e INSS continuam produzindo tensão entre investigadores e magistrados.
Também será necessário definir quem comandará a Polícia Federal durante o afastamento e até quando as medidas preventivas permanecerão em vigor.
O caso reúne, simultaneamente, Supremo Tribunal Federal, direção da Polícia Federal, inteligência policial, investigações financeiras e acusações de monitoramento envolvendo algumas das autoridades mais poderosas do país.
Por isso, a questão já não se limita a uma disputa entre integrantes do Estado.
O que precisa ser esclarecido é algo muito mais básico: quem autorizou esses relatórios, por que eles foram produzidos e se a estrutura de inteligência da Polícia Federal foi utilizada dentro dos limites da lei.
Enquanto essas respostas não vierem, a crise entre o STF e a PF continuará aberta — e com potencial para provocar novos desdobramentos nas próximas horas.